Grande Entrevista ao CEO da Tekever. Empresa portuguesa tornou-se referência na indústria dos drones

Grande Entrevista ao CEO da Tekever. Empresa portuguesa tornou-se referência na indústria dos drones

Os drones da Tekever operam num dos conflitos mais decisivos do nosso tempo: a guerra da Ucrânia. Num momento em que a Europa discute a defesa, soberania tecnológica e Inteligência Artificial, a Tekever cruza-se com algumas das maiores questões do século XXI.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: RTP

Ricardo Mendes foi o convidado da Grande Entrevista da RTP, com o jornalista Vítor Gonçalves, esta quarta-feira. O fundador e CEO da Tekever trabalha na tecnologia dos drones há 25 anos.

A Tekever começou por ser uma pequena companhia de software fundada por jovens engenheiros saídos do Instituto Superior Técnico. Hoje, é a empresa tecnológica com sede em Portugal mais valiosa de sempre. Está estimada em 6.500 milhões de dólares depois da última ronda de financiamento.

“Nós eramos miúdos muito ambiciosos. Tínhamos uma visão muito grande”, disse Ricardo Mendes sobre o início da empresa que fundou em conjunto com outros ex-estudantes do IST.

“Queríamos construir a partir de Portugal (…) algo com uma escala mundial”, afirmou, explicando que a Tekever cresceu sem investimento externo “pensando soluções, vendendo soluções, desenvolvendo, reinvestindo continuamente”.

“E cruzámo-nos com esta área dos sistemas autónomos”, referiu. “Tivemos um período de desenvolvimento bastante intensivo da tecnologia [dos drones] entre 2009 até hoje”.

“Este setor era muito dominado pela área da defesa em 2009. Mais tarde apareceu o mercado de massas, de consumo. Nós hoje podemos ir a uma loja e comprar um pequeno drone por 100 euros, ou até menos do que isso”.

“Vindos do mundo do software, aquilo que para nós era muito evidente era que este tipo de tecnologia e os sistemas que desenvolvemos devem evoluir muito depressa, tal como o nosso telemóvel evolui muito depressa, tal como o nosso computador”, disse o CEO.

Os fundadores da empresa foram, assim, para o mercado “não focados na venda de equipamento, mas oferecendo todo um serviço que inclui os equipamentos”, dando ao cliente “o resultado final que ele quer”.

O primeiro grande cliente foi a Agência Europeia da Segurança Marítima. O segundo foi o ministério britânico do Interior. Ainda hoje a Tekever trabalha para ambos a fazer vigilância marítima.

Faz, para o Governo britânico, vigilância no Canal da Mancha no âmbito da crise migratória. “Salvar pessoas que caíram à água e chegar a elas em minutos, em oposição de horas, ainda é hoje parte do trabalho que nós fazemos”, afirmou Ricardo Mendes.Guerra na Ucrânia originou viragem na dimensão da empresa
Quando se inicia a invasão da Ucrânia, “a Tekever já era uma empresa que dominava este mercado a nível europeu”, explicou o CEO, mas tornaram-se “mais visíveis do grande público nesse período”.

“Nós não trabalhávamos especialmente na área da defesa. Tínhamos alguns projetos, mas não era o nosso forte. Nunca tínhamos estado num conflito de guerra e os nossos sistemas não estavam preparados para operar” nesse cenário, contou na Grande Entrevista.

Acabaram por ser contactados por vários governos, nomeadamente o britânico, que lhes pediu que enviassem “um conjunto de sistemas para a Ucrânia para perceber como é que podíamos ser úteis aos ucranianos e às forças ucranianas”.

“Nós não vendemos ao Governo ucraniano. Nós vendemos sempre a instituições, nacionais ou internacionais (…) mas depois a interação operacional é obviamente com as forças militares ucranianas”, detalhou. No âmbito da guerra, a Tekever tem de “constantemente adaptar” o que faz à “mudança operacional no terreno”.

“Quando chegámos à Ucrânia no início do conflito (…) os nossos sistemas não estavam minimamente preparados para operar”, pois “tinham sido otimizados ao longo de vários anos” para funcionar noutros setores e missões, contou Ricardo Mendes.

Os drones agora “estão preparados para fazer um grande conjunto de missões”, nomeadamente em terra, onde realizam “missões de grande alcance e longa duração”, estando no ar por vezes 14 ou 16 horas.

Nessas missões, os aparelhos são usados para que as forças ucranianas percebam as movimentações e passem essa informação em tempo real para a tomada de decisões.

O fundador da Tekever explicou ainda que os sistemas estão preparados para que, em caso de abate ou captura, “nenhuma informação relevante possa ser recolhida”.

Questionado sobre se venderiam drones “ao lado mau da guerra”, Ricardo Mendes respondeu que a Tekever tem “um conjunto de valores extremamente forte” que “está acima do negócio”.

No caso da Ucrânia “não temos qualquer dúvida sobre qual o lado que devemos apoiar”, frisou.“Será impensável não termos um robot à nossa volta”
O CEO defendeu ainda que a robótica “vai ser tão transversal como a Internet”.

“Hoje para nós é impensável não ter acesso à Internet. Daqui a relativamente pouco tempo será impensável não termos um robot à nossa volta a fazer as mais pequenas coisas”, considerou.

Sobre a Inteligência Artificial, afirmou que, como com qualquer tecnologia, “temos de criar as condições seguras da sua existência”.

Ricardo Mendes falou ainda sobre o projeto ARX da Tekever, que quer combinar uma vigilância de grande área e altitude em que os drones ficam muitas horas no ar com uma vigilância “fina, precisa”, nomeadamente que capture áudio e não apenas imagem.
PUB